MIDIALAB

Ensino e pesquisa em mídias digitais e educação

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    O conteúdo deste blog está organizado em seis categorias: TEORIA (resumos, traduções e comentários de textos de outros autores); PRÁTICA (relatos de experiências que eu conheci de outro lugar), MINHA PESQUISA (registro da pesquisa que atualmente desenvolvo na USC com apoio da Fapesp), EXPERIÊNCIA INGLESA (relatos de políticas, pesquisas e experiências no campo da mídia, cultura e educação desenvolvidas naquele país) e NOTÍCIAS. Há também uma categoria com textos em inglês sobre mídia-educação no Brasil.
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LEITURA, ESCRITA E A QUESTÃO DA IDENTIDADE

Posted by alexandrabujokas em abril 20, 2008

Continuamos enfrentando problemas com a pouca familiaridade que os alunos têm com a prática de escrever textos. Além dos erros de ortografia e gramática, tenho percebido que os textos saem um pouco infantis para a idade deles. Ainda estou buscando modos de enfrentar esse problema. Quanto à ortografia, o uso do corretor do Open Office deve ajudar. Separei alguns cadernos de jornais e levei nas duas últimas semanas. Para minha surpresa, eles se interessaram, ficaram folheando, um aluno quis até fazer as palavras cruzadas (mas não conseguiu fazer tudo, e acabou desistindo).

O que eu observei me fez pensar em algumas coisas. Em primeiro lugar, fiquei imaginando onde começa essa história de que o aluno não sabe escrever porque não lê, e porque não lê, não desenvolve o hábito da leitura e da escrita,  e termina o Ensino Médio sofrendo o analfabetismo funcional etc etc etc.

Quando eu cursava as disciplinas do doutorado, participei de algumas discussões sobre o fato de a escola impor uma cultura que, às vezes, não tem significado na vida do aluno, não respeita a identidade da criança e, no final das contas, não ensina. Em geral, essas discussões se referiam mais a conteúdos ou tipos de textos, por exemplo.

Mas o que ocorre é que, independentemente do tipo de texto, são os fundamentos muito elementares da linguagem que não estão sendo mais ensinados. Presenciei uma cena no Midialab que me fez tecer algumas considerações muito pessoais, mas que talvez tenham lá algum fundamento.

Foi o seguinte: as monitoras e eu decidimos não interferir nos erros dos textos dos alunos – ao menos não de modo incisivo, para que eles não se sentissem intimidados ao escrever. Quem nos chama para corrigir, a gente ajuda; para quem não chama, a gente se finge de samambaia. Mas, num dia desses, uma nova aluna de jornalismo apareceu. Como ela não estava por dentro das nossas decisões, chegou falando que tinha muito erro de português nos blogs, ao que um dos alunos respondeu “é assim que a gente escreve. Se você não quiser, não lê”.

Essa situação me levou a pensar no seguinte: é claro que os alunos ficam – de um jeito ou de outro – sabendo das notícias que circulam na mídia (e, conseqüentemente, circulam entre professores e alunos) sobre a falta de qualidade das escolas públicas, em contraste com a qualidade da maioria das escolas particulares. Quando uma escola pública alcança um nível mínimo de qualidade, vira notícia de destaque no jornal. Esses alunos já se sentem diminuídos por uma série de marginalizações: não têm o mesmo acesso às tecnologias, aos bens de consumo, ao aprendizado de uma língua estrangeira. Ser, de alguma forma, discriminado por não estudar em uma escola boa deve doer na alma de um adolescente, é claro que sim! E talvez a rejeição ao aprendizado da leitura e da escrita seja um mecanismo de auto-defesa: desvalorizar algo que não se sabe pode ser uma saída para não sofrer por não sabê-lo.

Fico pensando no modo como o professores se comportam na sala de aula, ao conversar com os alunos sobre as dificuldades deles com a língua. Talvez esse seja um problema ainda velado, mas muito significativo para enfrentar as questões de ensino e aprendizagem da língua que, no fundo, são também questões de caráter cultural, envolvendo identidades e poder simbólido dentro da sala de aula.

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