CONCEITOS-CHAVE DO CAPÍTULO “NEW MEDIA CHILDHOODS”
Do livro Buckingham, D. Media Education: literacy, learning and contemporary culture. Cambridge: Polity Press/Blackwell, 2003.
Neste capítulo, o autor desenha um mapa abrangente das mudanças em quatro esferas – tecnologia, economia, linguagem e audiência – que influenciam diretamente no modo como as crianças e os jovens se relacionam com as mídias, e no modo como os pais e os conglomerados internacionais de comunicação enxergam tal relação. O autor faz uma análise crítica e perspicaz, que não pende nem para o pânico moral, muito menos para o entusiasmo obtuso.
“A mídia está destruindo a infância”
Tal noção é comumente associada ao crítico norte americano Neil Postman (O fim da infância, publicado em 1983).
Essencialmente, Postman argumenta que nossa concepção moderna de infância foi uma criação da mídia impressa; e que as novas mídias, particularmente a TV, a estão destruindo. De acordo com o autor, isso se deve primeiramente ao tipo de acesso que as crianças têm à informação. Enquanto para ter acesso à mídia impressa era preciso antes ter um longo aprendizado [alfabetização e o desenvolvimento de habilidades de leitura], nós não precisamos aprender a ler ou a interpretar a TV. A televisão, Postman argumenta, é uma mídia totalmente descoberta: pela TV, as crianças estão aprendendo cada vez mais sobre os “segredos” da vida adulta – sexo, drogas, violência – que costumavam ficar escondidas sob códigos impressos especializados. Como resultado, as crianças estão se comportando cada vez mais como adultos, e começam a demandar privilégios de adultos. (Buckingham, 2003, p.19)
“A noção de infância está mudando”
O que significa infância e como ela é experimentada, obviamente depende de fatores sociais como gênero, etnia, classe social, localização geográfica etc.
Ao menos no Reino Unido, as pesquisas sugerem que as crianças agora ficam muito mais confinadas em casa e têm muito menos independência de locomoção do que tinham 20 anos atrás. E, enquanto os pais agora passam muito menos tempo com as crianças, eles tentam compensar a falta fornecendo cada vez mais recursos econômicos para cuidar dos filhos. (Buckingham, 2003, p.21)
De fato, em alguns aspectos, está crescendo a polarização entre as crianças – não somente entre as ricas e as pobres, mas também entre aquelas que vivem uma vida “moderna” e as que vivem uma infância mais tradicional. Entretanto, numa visão geral, fica cada vez mais claro que as relações de poder e autoridade entre crianças e adultos está mudando. Enquanto existem alguns grupos que desejam reestabelecer as relações tradicionais, e retornar a uma era em que as crianças ‘eram vistas mas não ouvidas’, outros vêem essas mudanças como muito bem vindas, porque elas são uma extensão da democracia e dos direitos cidadãos da criança. Ao mesmo tempo, devemos também lembrar que as crianças realmente têm ganhado mais poder, mas não somente como cidadãos, mas também como consumidoras – e que, de fato, esses dois poderes estão se tornando impossíveis de serem separados. (Buckingham, 2003, p.22).
De acordo com o autor, quatro aspectos são paradigmáticos do cenário de transição (da cultura infanto-juvenil “tradicional”, fundada nas mídias impressas, para a cultura multimidiática corporativa, fundada no computador e na internet):
1. Mudanças tecnológicas
1.1 Proliferação – aparelhos e canais
1.2 Convergência – informação e entretenimento / mídia de massa e mídia dirigida / texto, som e imagem / produção e recepção
1.3 Facilidade de comunicação. Sem precisar revelar a identidade
O preço das filmadoras, das câmeras digitais e dos computadores estão caindo, à medida que crescem as capacidades dessas máquinas; ao menos em tese, a internet representa um meio de comunicação que não pode ser controlada por uma pequena elite. Nesse processo, argumenta-se, os limites entre produção e consumo e entre comunicação de massa e interpessoal estão começando a se desfazer. (Buckingham, 2003, p.23)
2. Mudanças econômicas
2.1 Crescimento das privatizações
2.2 Aumento da comercialização da cultura contemporânea através da mídia em campos diversos como política, esportes, saúde e até educação – todos esses campos têm sido invadidos pelas forças comerciais.
2.3 Diminuição das forças de regulação estatal – inclusive em setores importantes para o desenvolvimento da cidadania.
Uma conseqüência inevitável do desenvolvimento econômico tem sido a integração e a globalização das indústrias de mídia. O mercado midiático é agora dominado por um número pequeno de conglomerados multinacionais, marcas mundiais agora fornecem uma linguagem internacional ou “cultura comum”, particularmente para os jovens. Para as empresas nacionais, o sucesso no mercado internacional está se tornando cada vez mais vital para a sobrevivência, local inclusive. Muitas dessas corporações internacionais são, na verdade, impérios multimidiáticos: eles integram radiodifusão, editoras, tecnologia digital, incluindo software e hardware. (Buckingham, 2003, p.25)
3. Mudanças nas mensagens
3.1 Convergência: TV, cinema, jogos etc
3.2 Textos como “pretextos” para outras mídias ou “commodities culturais”
3.3 Textos cada vez mais com elementos de interatividade
3.4 Games emergem como os textos da infância e da juventude e elevam a importância do receptor como co-produtor de conteúdo para patamares antes não experimentados.
3.5 Muitos desses desenvolvimentos nos textos midiáticos são ditados primeiramente por uma lógica econômica.
A intertextualidade tem se tornado uma característica dominante na mídia contemporânea: os textos estão constantemente se referindo ou sendo feitos sobre outros textos, geralmente e modo irônico. Muitos desenhos animados contemporâneos, por exemplo, conscientemente são feitos a partir das referências a outras mídias, na forma de pastiches, homenagens ou paródias. Tais desenhos justapõem elementos incongruentes, de períodos históricos, gêneros e contextos diferentes; eles jogam com convenções de forma e representação já estabelecidas. Nesse processo, os textos midiáticos implicitamente concebem seus leitores como conhecedores da mídia, como consumidores letrados em mídia. (Buckingham, 2003, p.27)
Como a mídia se tornou incrivelmente ‘comodificada’, os produtores precisam explorar o sucesso através de uma ampla quantidade de mídias, em um curto período de tempo; eles são impelidos usar o mesmo material em diferentes plataformas. Ao mesmo tempo, a ironia tem se tornado um dispositivo de marketing muito útil, permitindo às corporações assegurar um lucro adicional ao reciclar produtos já existentes – em alguns casos, interatividade é geralmente um pouquinho mais do que uma forma de embalagem. . (Buckingham, 2003, p.28)
4. Mudanças na audiência
4.1 Crianças vistas como uma audiência peculiar, com habilidades muito sofisticadas de leitura em mídia
4.2 Entusiastas da mídia acreditam que o receptor tem agora muito mais poder sobre o texto (enquanto os críticos contra-argumentam que as pessoas estão muito mais abertas à manipulação e à exploração comercial)
4.3 A audiência tem agora muito mais poder de escolha, frente à proliferação de canais em diversas mídias
4.4 Mas, por causa da segmentação (que diminui o público e, conseqüentemente, os lucros) e da comoditização, na prática, o que se tem é a repetição de um número restrito de conteúdos.
Na prática, entretanto, o que os espectadores têm à sua disposição são as crescentes oportunidades de ver as mesmas coisas. (Buckingham, 2003, p.30)
EXEMPLO PARADIGMÁTICO DA MÍDIA PARA A NOVA INFÂNCIA:
O DISCURSO DO CANAL NICKELODEON
Este discurso geralmente está conectado com os argumentos sobre os direitos da infância. Internacionalmente, o expoente de maior sucesso de tal abordagem tem sido dedicada ao canal infantil Nickelodeon (propriedade da gigante da mídia norte americana Viacom). O que encontramos aqui é a retórica do apoderamento – a noção de que o canal é uma zona só para crianças, que dá voz às crianças, que parte do ponto de vista das crianças, que é o amigo das crianças. Esse discurso é reforçado na publicidade e no conteúdo do canal. As crianças são definidas primeiramente como “não-adultas”. Adultos são chatos, crianças são divertidas, adultos são conservadores, crianças são inovadores. Adultos nunca entendem, crianças sabem intuitivamente. Entretanto, apesar da ênfase nos “direitos infantis”, esse discurso não define as crianças como atores sociais e políticos independentes. Ao contrário: o discurso mantém as crianças longe do controle democrático e da responsabilidade. Trata-se de um discurso de soberania do consumidor mascarado como discurso de direitos culturais. (Buckingham, 2003, p.32)