Eu me enganei, mas fiquei satisfeita ao perceber que sou uma professora experiente o suficiente para perceber os problemas e, rapidamente, bolar estratégias alternativas.
Comecei a oficina sobre publicidade com a turma de terça-feira imitando uma atividade que aprendi num curso que fiz no British Film Institute em Londres, durante o pós-doutorado. A atividade consistia em cooocar uma série de afirmações sobre a publicidade e a cultura mididática em geral, e os alunos deveriam marcar se concordavam, não concordavam ou não tinham opinião. Depois, eles iriam tabular os dados (eram centenas de alunos, de escolas diferentes participanto) e esses dados seriam enviados para as escolas, para que os professores os usassem nas aulas sobre mídia. Achei a idéia muito interessante, e resolvi fazer aqui também. Minha surpresa foi perceber que, já na primeira afirmação, os alunos do Midialab não sabiam responder porque não conheciam o significado da palavra “estereótipo”. Tentei explicar: “estereótipo é mais ou menos como uma fórmula. O que é uma fórmula?”. Silêncio. “Dêem um exemplo de fórmula”. Eles falaram da fórmula da água e da fórmula da equação de primeiro grau. “Então, quando a água muda de lugar, a fórmula muda ou é sempre H20?”. Eles disseram que é sempre a mesma. “Quando a gente troca os valores da equação, muda o jeito de raciocinar? A fórumla muda ou só mudam as variáveis e o resultado?”. Disseram que só muda o resultado. “Então, na publicidade é a mesma coisa: muda o cenário, muda o produto, mudam as pessoas que aparecem, mas a estrutura é a mesma: um apelo, associado a um produto que, em geral, não tem nada a ver com o produto. As pessoas estão sempre sorrindo, relaxadas, satisfeitas, tomando cerveja ou remédio para insônia, comprando cosmético ou água sanitária”. O que vocês acham disso? Silêncio.
Fiquei pensando nas razões que geraram o fiasco da discussão inicial: o assunto estava muito abstrato? Ou os alunos simplesmente não têm o hábito de se reunir e discutir um assunto, na perspectiva da investigação?
Outra coisa que eu percebi: na semana seguinte, quando tentei retomar a idéia do apelo, eu começava a falar e alguns alunos começavam a olhar para os lados. Eu parei, perguntei se eles não estavam interessados, não estavam entendendo ou não conseguiam se concentrar. Novamente, silêncio. Daí, eu parti para a parte prática…
Na turma de quinta, pulei a parte da ficha com afirmações e fiz uma conversa informal: “de quais anúncios vocês se lembram?”, “Que influência esses anúncios têm na vida de vocês?” Aparticipação foi melhor: eles disseram que se lembravam da Coca-cola, da Adidas e das Casas Bahia. Disseram que uma das principais influências era o fato de, em geral, eles só comprarem produtos das marcas que eles conhecem, apesar de não terem certeza de que as marcas conhecidas ofereciam produtos melhores que o das marcas desconhecidas. Depois disso, partimos para a análise de anúncios, conforme está relatado no post “Estudando a publicidade (1)”.









